CHAT     INSTANT MESSENGER    
BOOKMARK
 |  CONVIDAR  |  GUIA DE AJUDA   |  IDIOMA:
DIÁRIO   ESCREVER UM NOVO DIÁRIO   EDITAR DIÁRIOS  
 
RSS

15
Apr/2008

O negócio de Maddie

Há um ano e tal uma menina inglesa desapareceu do quarto de um hotel algarvio enquanto os seus pais jantavam a poucas dezenas de metros dali.

 

O caso depressa se transformou num grande negócio mediático.

 

Jornais, rádios e televisões perceberam logo o filão deste reality show e enviaram para o local centenas de jornalistas para cobrirem o acontecimento. Na prática, muito pouco havia a cobrir, a não ser o facto dela ter desaparecido, de modo que à falta de melhor, toca a criar acontecimentos e cenários.

 

Imediatamente os media contactaram os comentadores do costume deste tipo de evento, uma casta que vive disto, ganham poder mediático sempre que há casos de polícia. O seu negócio é ser cúmplice da especulação com os media e servem de intermediários entre estes e as forças policiais. Ganham com a influência conseguida via mediatização. E dão dinheiro a ganhar aos media, de modo que é um negócio lucrativo para ambas as partes.

 

Depois temos as forças ditas policiais. Depressa reparam que aquele negócio lhes afecta a vaidade e a [in]competência. A carreira. Os intermediários mergulham-os num vaivém de teses, palmadinhas, intrigas, desconfianças. O ruído mediático é tal, que depressa a única questão realmente mediática que se coloca não é encontrar a menina, mas sim os culpados dela ter desaparecido. Se se encontrar a menina, o negócio acaba. Se se mantiver a discussão nos culpados, o negócio aumenta.

 

Surgiram até psicólogos criminais, especuladores da mente, na verdade uns pobres diabos à cata de clientes, a tecer as mais incríveis histórias e cenários. Recordo-me de um com ar imbecil a tecer uma tese de culpabilidade da mãe da menina porque quando foi prestar declarações na polícia, segundo ele, ela já não levaria o inseparável peluche da menina com que aparecia em todo o lado. Enquanto o «psicólogo» dizia isso, as imagens mostravam o peluche impavidamente pendurado na mochila da mãe quando esta entrava nas instalações da polícia, para ser ouvida...

 

Um jornal pode vender mais uns 20 mil exemplares por dia com uma história destas, 600 mil por mês. Entre vendas e publicidade, falamos de incrementos de 500 a 1 milhão de euros mensais. Quatro jornalistas custam uns 10 mil euros mensais.

 

Nas televisões, multiplique essas receitas por 3 a 5 e os custos por dois. Veja o que dá em seis meses. Imagine -- pois até me abstenho de contar -- as conversas de bastidores sobre o negócio que corre bem.

 

No fundo, a menina importa-lhes um chavo. Ou, pensando melhor, talvez lhes importe, sim, mas na proporção directa do negócio.

Não deve ser fácil para eles, viver assim. Como farão com a consciência? Não sei.

 

Os pais da menina tudo fizeram para conseguir uma grande cobertura mediática para o caso.

 

Era a esperança e a garantia que a polícia não abandonaria o caso, como abandonou tantos outros que não tinham pressão mediática. Políticos ingleses colocaram-se imediatamente em campo para dar a ajuda necessária e a população de patrocinadores investiu. O fenómeno une.

 

É um dos nossos pontos de união (não por sermos ingleses, escocêses, mas sobretudo por sermos pai e mãe). É um motivo de unidade, de orgulho pela solidariedade e compaixão. Somos todos solidários e isto une-nos.

 

O que faria eu, como pai, no seu lugar? Exactamente o mesmo. Tudo faria até conseguir encontrar os meus filhos. E berraria o mais possível para garantir que os polícias não abandonavam o caso.

 

Temos então uma menina desaparecida, uns pais aflitos a chamar a atenção para o caso, hordas de jornalistas ávidos de histórias, intermediários e comentadores com material macabro e interpretações à medida, e, finalmente, polícias a tentar gerir a comunicação de modo a que não sejam acusados de incompetentes.

 

E temos umas fontes, anónimas, a darem informações sobre as pistas (lembram-se dos fluidos do corpo no carro?) e as mais disparatadas teses.

 

São fontes bem colocadas, a quem interessa não o desfecho da história em si, mas mais o estabelecimento de uma rede de contactos e influência dentro dos media, pois é isso -- e só isso -- que permite que mantenham os seus postos de trabalho.

 

Quem são estas fontes, estes intermediários, estes polícias, estes jornalistas e estes comerciantes de emoções que negoceiam à custa da desgraça de uma família?

 

Porque é que o fazem? Pelo dinheiro, pelo poder, pela ambição, pela frustração? O que eu pergunto é o porquê mesmo, como são eles, como encaram os seus filhos ou pais quando chegam a casa depois de um dia em que destruiram cruelmentre outras pessoas, como se sentam à mesa e o que dizem quando conversam sobre a escola dos filhos? Que vêm, quando se miram no espelho pelas manhãs? O que os levou a fazer isto assim? Como será que se sentem?

 

Quem são aqueles psicólogos, o que estudaram, que negócio fazem, quem são os seus clientes, como se consideram a si próprios, quem são?

 

Quais são as técnicas e estratégias de comunicação que os media usam para este tipo de negócio, como são elaboradas e quais os resultados práticos?

 

É este o jornalismo que interessa... este jornalismo que nos descobre o porquê. É um jornalismo que mergulha nas dúvidas e incertezas, mas que nos obriga a um olhar atento sobre os fenómenos que condicionam e percepção que temos da realidade. Porque muitas vezes uma coisa é a realidade, e outra muito diferente é aquilo que julgamos ter acontecido, devido aos relatos parciais que nos são apresentados.

 

No jornalismo que me desperta não deixamos de apontar os factos de forma rigorosa, sistemática e cronológica. Mas a interpretação e análise desses factos -- que sempre existe, até pela simples forma como são apresentados -- é que deve ser muito mais cuidada, de forma a não enganar o leitor, pelo seu [nosso] interesse especulativo.

 

O nosso grande inimigo é a manipulação, não tanto a que nos rodeia, detectável com alguma investigação, mas sobretudo a manipulação mais íntima, a que fazemos para justificarmos a nós mesmos as nossas próprias opções.

 

Há um ano e tal uma menina inglesa desapareceu do quarto do hotel enquanto os seus pais jantavam a poucas dezenas de metros dali. A menina continua desaparecida. Quem não consegue imaginar o desânimo e a angústia dos que amam esta menina?

 

E como esta história afectou a confiança que depositamos na nossa comunidade para resolver situações destas? Essa é a responsabilidade directa, individual, de todos os que participaram activamente na história. Jornalistas, polícias, intermediários, comentadores e fontes. E muitos leitores que, por ausência de reflexão crítica, alimentam e consentem a voragem especulativa.

 

Jorge Van Krieken

Jornalista

 

 

 


Etiquetas: Maddie Manipulação Medias Jornalismo


Bookmark:



Vendo 1 - 2 de 2 comentários

15/04/2008 16:18:23
Jorge, este artículo es deprimente para quienes estamos en el periodismo porque es una profesión que ayuda a la gente. Comprender que un trágico suceso puede convertirse en un negocio para medios de comunicación sin escrúpulos es duro de admitir.

En España vivimos a diario un problema similar con programas de televisión a los que asiste un personaje más o menos famoso que acepta por dinero responder a cualquier pregunta que le hagan los contertulios del programa, aunque suponga romper su intimidad, la de su familia o amigos.
Afortunadamente, quedan medios de comunicación serios, y propongo que, además de denunciar las malas prácticas periodísticas, destaquemos las buenas cunado tengamos conocimiento de ellas. Que nos recomendemos unos a otros buenos artículos, programas de radio o de televisión, llevados por periodistas que cumplen con los compromisos deontológicos de la profesión.



15/04/2008 05:29:24

Muito bem Jorge, o caso Maddie também teve grande repercursão no Brasil, e eu como cidadã e mãe penso como tu, isso mais parece um grande `` negocio`` onde parece-me que a menina é o produto em questão.


Mesmo porque se não há cadaver , não há crime, e abrir uma instituição para arrecadar fundos ainda não é crise, só o será caso confirmada a fraude e seus supostos criadores da mesma.


 Me entristece é ver outros casos de crianças desaparecidas  em todo o mundo, que os pais correm atras dia e noite para o devido esclarecimento, e por vezes estas pessoas mal tem dinheiro para uma condução, mas não são tão bem acessorados então amargam o descaso o esquecimento e lutam sozinhos.


 Seria bom termos estes recursos para todos, e acessores de imprensa tambem, quem sabe cobrar grandes quantias para entrevistas, e processar a torto e direito por somas milionarias não?


 


 




Colocado Em: 18/05/2008 05:17:06
Colocado Em: 13/05/2008 16:04:22
Colocado Em: 22/04/2008 13:39:48
Colocado Em: 22/04/2008 05:44:38
Colocado Em: 18/04/2008 06:52:41





Copyright©2008 reporterX.com. All rights reserved.