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Maio/2008

Miguel Torga e a Liberdade
por AlmaLusa

E...ainda a Liberdade! Rsss

Transcrevo o final da resposta que o ilustre fadista João Braga, me enviou,

sobre o que aqui escrevi sobre o 25 de Abril.

Com um poema muito bonito por sinal e que faço questão de partilhar

convosco.

AlmaLusa

 

Eu tenho uma noção outra da liberdade, um bem tão misterioso e tão belo que ninguém até hoje conseguiu definir. Um bem que Deus nos concedeu, a todos nós, que até permite que O neguemos. Para terminar, envio-lhe um poema de Miguel Torga, que consubstancia, em minha opinião, o que de mais aproximado o homem conseguiu escrever sobre essa benesse tão sublime.

João Braga

Liberdade

 — Liberdade, que estais no céu...

Rezava o padre-nosso que sabia,

A pedir-te, humildemente,

O pão de cada dia.

Mas a tua bondade omnipotente

Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...

E a minha voz crescia

De emoção.

Mas um silêncio triste sepultava

A fé que ressumava

Da oração.

Até que um dia, corajosamente,

Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

Saborear, enfim,

O pão da minha fome.

— Liberdade, que estais em mim,

Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga

E já agora,transcrevo também,um extracto biográfico,
deste poeta,para que o situem melhor na
literatura portuguesa e não só...!
 
A sua saída da Presença reflecte uma característica fundamental da sua personalidade literária, uma individualidade veemente e intransigente, que o manteve afastado, por toda a vida, de escolas literárias e mesmo do contacto com os círculos culturais do meio português. A esta intensa consciência individual aliou-se, no entanto, uma profunda afirmação da sua pertença à natureza humana, com que se solidariza na oposição a todas as forças que oprimam a energia viva e a dignidade do homem, sejam elas as tiranias políticas ou o próprio Deus. Miguel Torga, tendo como homem a experiência dos sofrimentos da emigração e da vida rural, do contacto com as misérias e com a morte, tornou-se o poeta do mundo rural, das forças telúricas, ancestrais, que animam o instinto humano na sua luta dramática contra as leis que o aprisionam. Nessa revolta consiste a missão do poeta, que se afirma tanto na violência com que acusa a tirania divina e terrestre, como na ternura franciscana que estende, de forma vibrante, a todas as criaturas no seu sofrimento. Mas essa revolta, por outro lado, não corresponde a uma arreligiosidade ou recusa da transcendência.
A sua obra, recheada de simbologia bíblica, encontra-se, antes, imersa num sentido divino que transfigura a natureza e dignifica o homem no seu desafio ou no seu desprezo face ao divino. A ligação à terra, à região natal, a Portugal, à própria Península Ibérica e às suas gentes, é outra constante dos textos do autor. Ela justifica o profundo conhecimento que Torga procurou ter de Portugal e de Espanha, unidos no conceito de uma Ibéria comum, pela rudeza e pobreza dos seus meios naturais, pelo movimento de expansão e opressões da história, e por certas características humanas definidoras da sua personalidade. A intervenção cívica de Miguel Torga, na oposição ao Estado Novo e na denúncia dos crimes da guerra civil espanhola e de Franco, valeu-lhe a apreensão de algumas das suas obras pela censura e, mesmo, a prisão pela polícia política portuguesa.
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