
Descida da cruz
Vi os homens do alto da cruz, mas não vi o demónio.
O demónio dir-me-ia que a morte é vital, mas nada ouvi, aqui,
nesta paixão, sendo que apurei o ouvido e nem o eco das montanhas
do Moab ouvi, só ouvi como é doce a paixão e como esta crucificação
rende preito à esperança dos homens, tal como, de mim para comigo,
disse tantas vezes, e à multidão dos homens repeti.
Há coisas que não ouço e que não vejo, o demónio não vi, eis o que sei,
ele, se me visse nesta cruz, por certo choraria, pelos seus mil olhos
eu sei que choraria, pelos seus mil demónios no olhar, enquanto
chega a morte para que tudo se perfaça sobre o sofrimento,
a esponja do vinagre, a lança no flanco, os gritos das mulheres,
o grave galope dos cavalos a reter a multidão na sua esperança aflita.
Vi os homens do alto da cruz, mas não vi o demónio, essa luz
tão diferente, esse asco assinalável, mas não menos amistoso
pela demoníaca presença se aqui tivesse vindo, sendo que não me negaria
como outros me negaram, ah, não, não me negaria o que me persegue,
diria quem eu sou e qual o meu nome, e como os maltrapilhos desta terra
exercem pelo seu nome o nome que eu tenho, todos quantos
só pela minha dor rejubilam e se podem salvar.
Não vi aqui o demónio, nem vi Deus, vi o cálice e vi o abandono,
e vi a terra toda ensanguentada e Adonai ausente, ausente em parte incerta,
enquanto as mulheres e os homens se enlaçavam,
e foi a manhã inicial,
e a coroa de espinhos perfurava as minhas têmporas,
e os homens e as mulheres se enlaçavam,
e foi a noite inicial,
e por amor se uniram e geraram filhos,
enquanto sobre o Gólgota ecoavam os oboés e as trompas.
[in Sobre as Imagens, de Amadeu Baptista, inédito]
Sobre Amadeu Baptista
Vencedor da edição portuguesa do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica,
Amadeu Baptista nasceu em 6 de maio 1953 na Cidade do Porto começou a publicar em 1982
(As Passagens Secretas) e tem 20 livros editados em Portugal, além de poemas traduzidos para alemão,
castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno.
Está representado em diversas antologias e livros colectivos.
De entre os seus vários livros inéditos, destacam-se Estrela de Bizâncio (vencedor do Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2005,
promovido pela Câmara Municipal daquela cidade), Poemas de Caravaggio (vencedor do Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire 2007,
promovido pela Câmara Municipal de Benavente) e Sobre as Imagens (vencedor da edição portuguesa do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica,
instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e pelo Ayuntamiento de Punta Umbria, com a colaboração da
Sulscrito — Círculo Literário do Algarve).
Etiquetas: Literatura