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10
Apr/2008

Linguagem e Manipulação

O tópico sobre a «Linguagem», que o Francisco Costa Félix aqui iniciou no reporterX, é um tema que sempre me fascinou ao longo de toda a vida.  Simplificando, para mim a linguagem é simultaneamente a Liberdade e a Prisão. Os idiomas e as suas gramáticas não são meros instrumentos de comunicação. São ferrolhos organizacionais, esporas que servem sobretudo para organizar e dominar. Um poema liberta na proporção inversa que as mesmas palavras aprisionam e talvez seja por isso que o Pessoa confessou que o Poeta é um fingidor.

Sempre senti que o meu destino estava ligado às palavras. Nunca escrevi um livro, mas no entanto é isso o que mais ardentemente sempre ambicionei fazer. Sinto-me incompleto, mas passo o tempo a escrever mentalmente. Felizardo, tenho um leitor fiel que me acompanha sem protestos. Eu.

Desde miúdo que recordo um fascínio pelos sons da linguagem. Os significados das palavras deixavam-me perplexo, os meus velhos professores de latim martelavam-nos com interrupções palavra-sim-palavra-não, explicando a sua proveniência, derivações e significados. Sempre olhei para aqueles sons com um misto de curiosidade e desconfiança, como se intuisse que por trás de cada uma daquelas palavras se encontravam segredos ainda não revelados, razões ocultas que justificavam as suas existências.

Como podiam simples palavras de aspecto tão frágil desencadear guerras, paixões, amores, ódios, sofrimentos e felicidade? Como é que simples letras articuladas em palavras, frases, alcançavam tamanho poder? Não, aquelas derivações do latim não bastavam para explicar o significado das palavras. Havia algo mais que teria de justificar o porquê do aparecimento dessas combinações de letras.

Cresci em colégios religiosos, onde cedo descobri o colorido das histórias do velho e novo testamento. As imagens de Moisés a conduzir o seu povo, Abraão,  as iras de Deus, o sangue e os sacrifícios pagãos, os infernos em chama, o paraíso onde animais e homens convivem sorridentes, as imagens de Cristo com um coração reluzente ao peito, todas aquelas histórias fantásticas nos rolos de slides coloridos deslizavam no pequeno projector manual cinzento que o padre de batina negra rodava,  à medida que ía soltando palavras com pronúncia italiana.

Aos 11 anos li a Terceira Visão de Lobsang Rampa e o meu mundo mudou de cor e de sons. Passei a ser Budista e a olhar com desconfiança para todas as exegeses católicas dos Dehonianos. Daí a Lao-Tse foi um passo e mergulhei no Taoismo. Era a desconstrução de todo o mundo dos slides do padre Mário. Nada sei. Vazio. Nas férias, aprendi a tocar Blowing in the Wind, de Bob Dylan. Seguiram-se Woodstock, Janis Joplin, Joan Baez... Grande agitação. Dois anos mais tarde, em 1971, o concerto para Bangladesh,  êxtase, a cítara de Ravi Shankar.

De novo o Oriente se cruzara no meu caminho. Os sons tinham outro significado. Sou neto materno de uma avó judia e de um avô indiano, era como se os cromossomas maternos me conduzissem em overdrive pelos meandros da linguagem, do som, da religião e do misticismo.

Mas foi um professor, tinha eu 11 anos, quem me deu a chave. Nunca mais o esquecerei. Decorria uma classe normal e este professor, um padre dehoniano, tinha chegado há poucos dias, creio que leccionava teologia numa universidade. Um novo professor significava sempre uma nova oportunidade de discussão e descoberta, mas era sobretudo a necessidade que todos tínhamos de pôr à prova o novato. Havia duas categorias de professores. Os que ensinavam a matéria e os outros, que estimulavam a reflexão e nos entusiasmavam na descoberta, independentemente da matéria. Aliás, quase nunca sobre a matéria, que já naquele tempo era um chouriçado de miduencias com pouco interesse.

Estávamos numa fase de acaloradas discussões sobre os dogmas católicos. Eu tinha 11 anos, 1969, andava no primeiro ano do Liceu, tocava Blowing in the Wind do Bob Dylan desde as férias grandes, sonhava com namoradas e lia Maximo Gorki, além de Lobsang Rampa, pelo que não me viessem com histórias a dizer que Maria era virgem.

O que o padre nos diria a seguir ficou para sempre gravado na minha memória. Ao ponto de ter mudado toda a percepção que eu tinha do mundo das palavras. Nunca até então uma frase tivera tão grande efeito em mim e me explicara, de forma tão simples e clara, as controvérsias que me afastavam dos palavreados que queriam amarrar-me a preconceitos.

«Dizer que Maria é virgem é só uma maneira de dizer que era bela e pura, nada mais do que isso. As palavras servem para isso. Não há que levá-las à letra» -- disse ele.

Foi como um trovão silencioso. Percebi de repente que tudo aquilo que uma palavra dizia só teria o significado que eu quizesse dar-lhe.  Realizei que a palavra é utensílio de manipulação, pois se Maria não era virgem, a sua virgindade interessava a alguns e maravilhava outros. A mim não me fazia absolutamente nada. Nem a ela. Mas percebi que deixasse alguns felizes no lobby do dogma religioso, esses mestres na manipulação das mentes e das vontades. A partir dessa altura nunca mais confiei numa única palavra. Percebi que uma mesma palavra ora é esponja ora é cortante, há que ter todo o cuidado. Ao longo do tempo percebi que são tão perigosas que aprisionam não só uma pessoa, mas toda uma civilização.

Mais de 20 anos depois desta aula,  viajei à India para escrever uma reportagem sobre um jovem português indiano que fora de Lisboa a Porbandar, no Gujarat, para ali encontrar esposa. Mergulhei numa sociedade recheada de novos cheiros, sons, contradições, mitos, castas, tradições, reencarnações e deuses, onde tudo é amplificado e explicado por um tão simples como complexo conceito: a intuição. O hinduismo descreve a evolução da humanidade e a sua razão de existir como poucas religiões conseguem fazer. É uma religião que, como as outras, é confrontada cruelmente com a utilização que dela fizeram os seus sacerdotes, que perpetuaram toda uma regra societária de castas para garantir a segurança parasitária da sua própria, mergulhando um povo num labirinto de crenças e rituais exegéticos que durante milénios permitiram que um punhado usasse uma mão de obra escrava. O mesmo que no Ocidente, hoje com os Bancos e seus associados. Um dia escreverei mais detalhadamente sobre isso. Mas passemos a diante.

Foi num ashram perto de Porbandar,  nessa viagem, onde encontrei uma antiga hippie francesa, agora sacerdotisa, que se reclamava descendente dos richis arianos, povo que se refugiara há milhares de anos nos himalaias, vindos da Ásia Central, segundo reza a lenda. Ela veio da Europa para o Nepal nos anos sessenta, seguindo a mítica rota para Katmandu. Afastara-se das drogas e empreendeu uma longa caminhada pelos silêncios do yoga e  estudo do sânscrito, até que desembarcou em Porbandar e criou um ashram onde acolhe e alimenta os peregrinos, trata os doentes e reza. Ali fiquei uns dias em retiro, rodeado de espiritualidade e algum charlatanismo de umas castas coloridas de místicos peregrinos indús que tanto pregavam sapiência como logo a seguir tentavam alguma cobrança pelo copyright de fotografias.

Foi nessa altura que ouvi uma das histórias mais formidáveis sobre a génese das palavras e da linguagem.

Eis a história, simplificada:

Um dia, há muitos milhares de anos, os homens sentiram necessidade de criar uma  linguagem que lhes permitisse transmitir o conhecimento e organizar a sociedade com regras e governo. Para tal, foi necessário criar um alfabeto. A linguagem até então era só oral, e provinha dos sons que emanavam dos chakras do corpo humano, sendo que cada um desses sons, tal qual nota musical, ficou representado numa das letras de um alfabeto pré-sânscrito, a deva-bhāā, ou língua divina, como é conhecida. Ao contrário de todas as outras línguas, as letras deste alfabeto são, pois, sons, que derivaram em letras. O conhecimento dos sons, destas letras, implica a compreensão dos sons que emanam da energia dos chakras, a energia que emana da vida.

Um mantra, um poema, seria pois uma combinação de sons da energia da vida.

Uma vez mais,  mergulhei numa profunda reflexão silenciosa.  Passei a dar mais cuidado aos sons do que às próprias letras e tentei descortinar de que forma um som poderia encerrar algum pedido de auxílio do prisioneiro da palavra. A palavra  incrustrou-se na personalidade do portador, ao ponto de já não sabermos muito bem quem é ele, se a palavra que diz, se o corpo que a produz ou consente.

O sânscrito foi confinado às cerimónias religiosas que só os sacerdotes decoram por conveniência do ofício e da esmola,  e bem depressa outras línguas mais terra-a-terra dele se formaram, mais eficazes na organização social das castas, tanto a oriente como a ocidente, a norte e a sul.  Daqueles sons emanados dos chakras, da energia que dá vida,  restaram meras distorções soltas e recordações liongínquas.

Se eu já olhava para as palavras com desconfiança, agora desprezava-as como predadoras, um perigo para a minha sobrevivência. Ainda por cima eu, um jornalista, que disso fazia ofício, tal como os sacerdotes.

E assim, começo aqui uma série de ensaios e deambulações sobre o real significado das palavras, expressões e sua importância nas nossas vidas. Como cavalo de Tróia, utilizarei o mesmo instrumento da tortura, a palavra, para tentar desconstruí-la com o máximo de cinismo que souber destilar.

Jorge Van Krieken


Etiquetas: Linguagem Sânscrito Manipulação Religiões


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